domingo, 30 de janeiro de 2005

Queria ser uma bailarina




Queria ser uma bailarina
e dançar, dançar.
Embelezar a vida.
Paralisar o mundo
com a minha leveza,
com a minha ligeireza.

Queria ser uma bailarina.
Uma bailarina, sim.
Porque não?
Queria quase levitar,
quase ser leve como uma pluma
de um formoso cisne branco,
quase alcançar o céu
através dos meus doces movimentos,
através dos passos embriagadores da minha dança.
Queria quase ser uma bela borboleta
replecta de cores,
replecta de beleza,
replecta de encanto.

Queria ser uma bailarina
e dançar, dançar
até ao infinito.
Seduzindo planetas,
cometas,
estrelas,
seduzindo o universo.

Queria ser uma bailarina.
Não uma rapariga qualquer
amada como o rapariga qualquer,
mas uma bailarina
amada como uma bailarina.

Raphaela Blat

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Carta




Pego no lápis.
Arranco uma folha de papel
do meu velho caderno reciclado.
Começo a escrever.
Letras sem sentido espalham-se por toda a folha.
Algo para mim mesma aparece no meio da escrita,
mas não sou eu que a escrevo.
Quem é, então?
Quem escreve para mim
usando as minhas próprias mãos?
É uma carta,
é uma carta que se materializa
na minha velha folha de papel.
Uma carta para mim.
As palavras estão ali
mas não fui eu que as escrevi
e fui.
Fecho os olhos.
Respiro bem fundo.
Esvazio a mente
e começo a ler.
Tão formosa carta me aparece ali
na minha velha folha de papel.
Que diz?
Que me apoia sempre.
Que me ajuda sempre.
Que não me condena.
Que não me julga.
Que diz?
Que me ama.
Na minha velha folha de papel,
uma carta nasce
a partir dos meus dedos.
Escrita por mim.
Escrita por ti.
Uma carta tua, avó,
que vieste
para me amar uma vez mais
na minha velha folha de papel.

Raphaela Blat

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

Enquanto dormias


De noite
Enquanto dormias
Chorei
Chorei como há muito tempo o não fazia
Chorei como há muito tempo o não queria
De noite
Enquanto dormias
Chorei
Mesmo sabendo que me amas
Mesmo sabendo que me desejas
Mesmo tudo isso sabendo
Chorei
Esta saudade que sinto
Esta saudade que fere e mata como um punhal
É um veneno e um antídoto
Depois de me ferir, cura-me
Depois de me matar, dá-me vida
Pois sem esta saudade
Sem este punhal
Como conheceria a felicidade?
Como continuaria vivendo?
E mesmo tudo isso sabendo
De noite
Enquanto dormias
Chorei


Raphaela Blat

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

Coragem


Saio de casa.
Observo a vida na rua
E um sentimento apodera-se de mim.
Sinto que não pertenço aqui,
Que não sou daqui.
Se não pertenço,
Então que faço neste lugar?
Espero.
Espero que a coragem me comece a acompanhar,
A coragem que teima em me deixar para trás,
Que teima em fugir de mim.
Creio que ela julga que não sou forte.
Talvez não seja,
Mas se a coragem me acompanhasse
Sentir-me-ia forte.
Muito forte.
E mesmo que fosse somente uma ilusão,
Conseguiria quebrar as correntes que me prendem,
Que não me deixam ser imensamente feliz,
Pois aqui não sou feliz.
Aqui jamais serei feliz.
Eu não pertenço a este lugar.
Coragem, vem, por favor.
Vem buscar-me.
Dá-me a mão.
Leva-me para onde devo estar.

Leva-me para onde sinta a plenitude da felicidade.
Por favor, coragem, encontra-me.


Raphaela Blat

sábado, 22 de janeiro de 2005

Mudança


Há algum tempo, a minha amiga Carol mandou-me um pequeno filme sobre mudança.
Gosto bastante. Fala sobre mudar. Mudar tudo.
Bem, é so clicarem onde diz «Mude» e não se esquecerem de ligar o som.
Espero que gostem:)

Mude

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Malandragem




Quem sabe eu 'inda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola, sozinha
Cansada, com minhas meias três-quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar

Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois eu sou criança e não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar

Bobeira é não viver na realidade
E eu ainda tenho a tarde inteira
Eu ando nas ruas, eu troco cheque
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar

Cássia Eller, Acústico MTV


Bem, esta música durante muito tempo disse muito sobre mim.
Escutava a música e só me via a mim mesma ali retratada.
Tornou-se importante sem eu me dar conta.
Hoje relembro tanta coisa quando a escuto.
Tanta coisa que aconteceu.
Tanta coisa que não aconteceu.
É pena eu não saber pôr aqui a música, senão eu colocava-a aqui para escutarem.


Na fotografia sou eu com 3 ou 4 anitos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Gaivotas




Oiço as gaivotas rodeando-me,
envolvendo-me,
abraçando-me.
Não me importo.
Sorrio.
São gaivotas amigas.
Cercam-me para me dizerem que tudo está bem,
que tudo vai correr bem,
que não me deixarão sofrer,
pois estão ali e proteger-me-ão.
Choro.
Lágrimas salgadas
escorrem pela minha face
enquanto os meus olhos admiram um mar revolto,
tempestuoso,
que brame o meu nome.
Quer buscar-me.
Quer engolir-me.
Mas elas não deixam.
As gaivotas não deixam.
Protejam-me.
Fiquem aqui.
Não me abandonem.
Grito-lhes.
Oiço-as sem cessar.
Oiço-as mesmo quando estou deitada na minha cama
e me preparo para adormecer.
As gaivotas ficam, sempre ficam.
Estão aqui ao meu lado a cuidar de mim.
Estão aqui para que nenhum mar revolto,
embrutecido,
me ataque,
me machuque,
me fira.
Elas estão aqui.
As gaivotas ficam, sempre ficam.

Raphaela Blat

Todos nós temos as nossas gaivotas.
As gaivotas do meu poema são as pessoas que me querem bem.
São especialmente os meus amigos, com quem sei que posso sempre contar.
Quem são elas para ti? Não quero que me digas, só quero que reflictas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Passa uma borboleta




Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta.
A flor é apenas flor.

Alberto Caeiro, Guardador de Segredos

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Aquele abraço...




Acordaram abraçados um ao outro. Naquele abraço, ela sentia-se tão protegida que, todos os medos que sempre a perseguiam, ali não tinham lugar. A noite tinha acalmado um pouco as saudades que sentiam um do outro. Mas só um pouco... viver longe de quem se ama não é fácil, dizem os apaixonados.
Ele dormia sempre muito bem quando a sentia por perto. Quando acordava, tocava-a para saber que tudo aquilo era real, sentia o cheiro daquele amor e voltava a dormir com um sorriso nos lábios. Nas noites em que ela estava ausente, não conseguia descansar. Faltava-lhe a sua outra parte, o outro eu que o completava.
Ela aprendera a dormir bem ao lado dele. No início tinha um sono inconstante, com sonhos desagradáveis e, por isso, evitava dormir quando estava com ele. Ficava acordada tanto tempo quanto conseguisse, olhando para o rosto da pessoa que mais amava, para todos os contornos da sua face, sentia a sua respiração, sentia o seu amor... Abraçava-o e ali ficava acordada até que o sono, finalmente, a vencia e tudo recomeçava... Os pesadelos não a deixavam em paz, não a deixavam aproveitar o pouco tempo que tinha com ele. Aquele segredo consumia-a. Não poder contar a ninguém estava a tornar-se insuportável. Aquele segredo. Maldito segredo. Acordava sobressaltada, aninhava-se mais naquele corpo amado que tinha a seu lado e tentava de novo não dormir.
Agora era diferente... os sonos inconstantes e repletos de pesadelos, deram lugar a sonos e sonhos "cor-de-rosa", cheios de paz e tranquilidade. Decidiu que quando estivesse com ele não pensaria em mais nada, somente neles dois. E antes de dormir não pensaria no que aconteceria se a sua família descobrisse, se a mãe descobrisse... simplesmente não pensaria em ninguém. Resultou. Agora ela obrigava-se a esquecer os outros quando estava com o seu amor.
Acordaram abraçados um ao outro. Naquele abraço, ela sentia-se tão protegida que, todos os medos que sempre a perseguiam, ali não tinham lugar.


imagem retirada de http://artmam.com

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

Onde estás?


Olho o Sol nascer
Olho o dia amanhecer
E sem sequer pensar
Sem mesmo me esforçar
Mergulho
Mergulho em mais um dia
Como mergulho para todos os dias
Mas hoje é diferente
Hoje a esperança que sempre me acompanhou
Foi-se e me abandonou
Onde estás?
Pergunto sem cessar
Mas ninguém responde
Nada responde
Onde estás?
Diz-me!
Onde estás?
Oiço a tua voz
E ao escutar o som da tua voz
O meu coração acorda
E vibra
E explode de tão feliz
E os batimentos aceleram
Como se corressem para mais depressa te alcançarem
Mas ao deixar de escutar a tua voz
Que é como um bálsamo para o meu amor
O meu coração adormece
Já não vibra
Já não explode
Já me quer também abandonar
Quer deixar-me
Quer parar
Quer, enfim,
Adormecer para todo o sempre.
E eu não tenho forças
Já não tenho forças
Pois sem a minha esperança
Já nada mais tenho
Onde estás?
Olho o dia entardecer
Olho o Sol morrer
Já não mergulharei
Como todos os dias
Para todos os dias.

Raphaela Blat

domingo, 16 de janeiro de 2005

Quem é Raphaela Blat

Para quem não sabe, a Raphaela Blat sou eu mesma. Há muito tempo que assino as minhas poesias com este nome e não consigo parar, nem mesmo aqui no meu blog. Com a prosa não tenho quaisquer problemas em não assinar como Raphaela Blat, mas nos poemas não sou capaz.

Manhãs cinzentas


Manhãs cinzentas perseguem-me,
Cercam-me.
Não me deixam ver o sol.
Não me deixam aquecer.
Não me deixam ser feliz.
Manhãs cinzentas são como inimigas:
Só estão satisfeitas quando absorvem a nossa alegria,
Quando tiram a nossa vida de nós mesmos
E, se não formos fortes,

Elas conseguem,
Elas tiram-nos tudo.
Matam-nos a pouco e pouco,
Não o nosso corpo,
Mas a nossa alma.
Manhãs cinzentas são como jaulas
Que nos prendem e afastam do universo,
Que não nos deixam ver mais nada para além delas mesmas.
Manhãs cinzentas são como fantasmas:
Assombram-nos e ninguém as culpa.
Ninguém diz: a culpa é das manhãs cinzentas.
Elas são espertas.
Sabem o que fazem.
Sabem como fazê-lo.
Sabem como reprimir um sorriso,
Entristecer um coração,
Lacrimejar um olhar.
Manhãs cinzentas só estão satisfeitas quando a negritude vence,
Quando as palavras doces desaparecem,
Quando um toque meigo finda,

Quando a alma entristece...

Raphaela Blat

sábado, 15 de janeiro de 2005

Dorme, meu bem


Dorme, meu bem.
Dorme.
Que eu velo o teu sono,
Eu afasto os teus fantasmas
Enquanto descansas.
Dorme, meu bem.
Dorme.
Que ficarei aqui
E não te deixarei só um só momento.
Ficarei aqui
E não abrirei a porta da felicidade a mais ninguém
Porque egoísta sou
E não ouso aceitar outro alguém neste quarto amado.
Dorme, meu bem.
Dorme.
Que quando acordares estarei aqui,
Estarei a olhar o teu rosto,
Estarei a olhar a minha vida através da tua vida,
Estarei a olhar o meu caminho,
Um caminho que somente existiu quando vieste até mim.
Nada mais existe antes de ti.
Em ti começa todo o meu ser
E todo o meu percurso neste mundo.
Dorme, meu bem.
Dorme.
Que eu velo o teu sono
E afasto os teus fantasmas.
Dorme, meu bem.
Dorme.

Raphaela Blat

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005


As Perfeitas=p, não estão todas aqui, falta a Kika, com ela seria uma perfeitice completa. Bem, seguindo o sentido dos ponteiros do relógio e começando na gaja de blusa branca, temos: a Pirilampa, a Cacau, a Nêssa, a Carol e euzita:)
ADORO estas miúdas!!

Hoje estou numa de músicas com letras doidas.
Estas duas foram as escolhidas:)

Sorria, você está sendo filmado

Acordo em meu sono bom
Preparo o meu café
Passo vida em meu pão
Saúde ferve no fogão
Dou partida em meu sonho
Cheiro a pura emoção
E a fumaça do sucesso
Já está em cada pulmão

Ligo a tv
Boto o rádio pra tocar
Fecho os olhos
E uso o assento da poltrona
Pra flutuar
Fecho os olhos
E uso o assento da poltrona

E mais tarde com os amigos
Bebo sempre alegria
Asas pra ir embora
Sorriso no fim do dia

Pato Fu, Ruído Rosa

Tô bem debaixo pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder faltar
Devagarinho pra poder caber
Bem de leve pra não perdoar
Tô estudando pra saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar
Eu tô te explicando pra te confundir
Tô te confundindo pra te esclarecer
Tô iluminado pra poder cegar
Tô ficando cego pra poder guiar
Suavemente pra poder rasgar
Olho fechado pra te ver melhor
Com alegria pra poder chorar
Desesperado pra ter paciência
Carinhoso pra poder ferir
Lentamente pra não atrasar
Atrás da vida pra poder morrer
Eu tô me despedindo pra poder voltar


música cantada por Zélia Duncan
Escrita por Tom Zé & Elton Medeiros

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005


Everything I do (I do it for you)

Look into my eyes - you will see
What you mean to me
Search your heart - search your soul
And when you find me there you'll search no more
Don't tell me it's not worth tryin' for
You can't tell me it's not worth dyin' for
You know it's true
Everything I do - I do it for you


Look into your heart - you will find
There's nothin' there to hide
Take me as I am - take my life
I would give it all I would sacrifice
Don't tell me it's not worth fightin' for
I can't help it there's nothin' I want more
You know it's true
Everything I do - I do it for you


There's no love - like your love
And no other - could give more love
There's nowhere - unless you're there
All the time - all the way


Don't tell me it's not worth tryin' for
I can't help it there's nothin'
I want moreI would fight for you - I'd lie for you
Walk the wire for you - You I'd die for you


You know it's true
Everything I do - I do it for you


Hoje o meu blog é todo dedicado a ti, meu amor.
Quando me cantaste esta música ainda não te amava, ainda não sabia o que representarias para mim um dia. Só hoje sei.

Ana beabidak, habibi.

Haja o que houver

Haja o que houver, estou aqui
Haja o que houver, espero por ti
Volta no vento, oh, meu amor
Volta depressa, por favor
Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta, no vento, por favor
Eu sei, eu sei
Quem és pra mim
Haja o que houver, espero por ti

Pedro Ayres Magalhães

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

i miss u


Queria dizer...

Queria dizer amo-te e não digo.
Queria ter uma vida que não tenho.
Queria ser um doido feliz numa terra insana.
Queria cuspir a verdade a todos.
Queria cuspir a verdade ao mundo.
Queria cuspir a verdade a ti, pai.
A ti que não me vês
porque os teus olhos estão sempre fechados para mim.
Queria ser alguém que não sou.
Queria ser um alguém com coragem,
coragem para gritar o que não grito,
calar o que não calo,
chorar o que não choro.
Queria parar de dizer: estou farto.
Estou farto de mim.
Estou farto da vida que me persegue
e não me deixa ser infinitamente feliz...
Quero somente a vida que muitas vezes me acompanha
e que me faz vibrar de emoção,
que me faz desejar viver para sempre,
que me faz almejar um futuro sorridente.
Todos nós temos duas vidas que estão connosco.
Uma que tentamos abandonar, fugir dela.
Outra que tentamos agarrar, fundir-nos nela.
Mas por vezes fugimos da vida errada.
Fugimos da vida que tão ardentemente desejávamos agarrar.
Queria ter uma vida que não tenho... mas só às vezes,
só quando deixo a vida certa guardada em casa
e trago a vida que não devia à rua acompanhar-me.
Queria dizer amo-te e não digo.
Porquê não digo?
Porque estou com a vida errada?
Não digo amo-te porque não quero revelar-me assim.
Não quero ser despido desta forma.
Oh, queria dizer amo-te e não digo.

Raphaela Blat

para ti vab meu privorito

Adeus

Já gastámos as palavras, pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro (1950)


Aprendi a gostar deste poema como aprendi a gostar de quem me deu a conhecer este poema. Beijo, carlita.

terça-feira, 11 de janeiro de 2005


Quadro de Silas Rhodes com a seguinte frase: «Even a great idea is only an idea until you make it real.» Foi deste forma que decidi terminar oficialmente a minha história. Posted by Hello

Verão em Sintra Parte IV - O Final

Mariana, desde pequena, sempre tivera aquele sonho. Ela caminhava, caminhava até chegar a um velho castelo. Entrava nele e uma senhora muito bem trajada aparecia-lhe, conversava com ela, dava-lhe um vestido de princesinha e dizia que estava ali para a proteger. Ela dizia à pequena Mariana que um dia ajudá-la-ia a cumprir o seu destino, realizando um desejo da menina. Mas antes que pudesse dizer mais qualquer coisa, acordava. Nunca falara deste sonho a ninguém. A Senhora tinha pedido. Ela fazia o que a Senhora pedia. Porém há já algum tempo que não sonhava com a Senhora, tempo suficiente para não reconhecer a sua voz logo. E quando fez um esforço para se lembrar da última vez que tinha sonhado com ela, não conseguia.
- Vim realizar o teu desejo hoje, Mariana. Chegou a hora... - enquanto a Senhora falava sobre o desejo, Mariana lembrou-se. A última vez que tinha sonhado com a Senhora fora quando, finalmente, fizera o pedido e a Senhora informara-a que não se voltariam a ver até... - o dia em que um castelo estivesse acima da sua cidade e margarida deixasse de ser uma flor. É este o dia, Mariana.
Margarida olhou para a amiga. Era isso, era por isso o sentimento de ter uma missão a cumprir. Era por isso que tinha sido ela a dar a ideia do castelo. Era por isso que ficara paralizada ao ver a Senhora. Ela não podia fazer nada, a missão já estava cumprida.
- Mariana começou a recuar.
- Não, não pode. Naquele dia estava muito triste. Não sabia o que dizia.
- Nada posso fazer, Mariana. Eu avisei-te que não poderias voltar atrás no teu pedido e tu disseste que não voltarias.
- Mas e a minha mãe e...
- Ninguém mais se lembrará de ti. Serás não mais que uma lenda.
- Mas eu não quero dormir agora.
- Voltarás um dia, como pediste.
Mariana começou a cair suavemente no chão de pedra e terra e os seus olhos fecharam-se a pouco e pouco, caindo num sono profundo.
No último sonho que tivera com a Senhora, no dia do seu 16º aniversário, Mariana tinha feito o seu pedido. Estava tão triste que pedira para dormir, dormir num sono encantado e somente acordar quando o seu amado chegasse. Ele teria que chegar. Que levasse décadas, que levasse séculos, não importava, só queria que alguém gostasse dela e que esse amor a fizesse retornar à vida.
E assim, a Bela Adormecida repousou e repousa no seu leito encantado, esperando.



Esta história sofreu uma grande alteração desde a sua ideia original. Achei-a demasiado óbvia para algumas pessoas e decidi mudá-la completamente. Não sei se gostaram, mas espero que sim.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Verão em Sintra Parte III - A Senhora do Castelo

E foi num dos passeios que as duas faziam que a viram.
Tinham decidido sair um pouco da cidade de Sintra e, como já tinham visitado o Palácio da Pena, escolheram ir ao Castelo dos Mouros. Olhar tudo lá de cima deveria ser espectacular, achavam elas. O Palácio não as tinha entusiasmado muito, todas aquelas peças antigas entediavam-nas, mas tinham esperança que no Castelo fosse bem diferente. Provavelmente era somente a vista que era bonita, mas Mariana sentia uma sensação estranha. Não sabia se boa se ruim e isso inquietava-a. Talvez não devessem ir, ou então, deveriam ir sem demora, deveriam ir logo. Não sabia... Preferiu pensar que tudo era imaginação da sua cabeça e tratou-se de esquecer aquilo. Depois de almoço, foram e quando chegaram deslumbraram-se com a paisagem. Sentaram-se ao Sol, visitaram todos os recantos do Castelo e foram até às muralhas, percorrendo toda a escadaria que a ladeava, imitando reis e rainhas, gargalhando com a brincadeira. Quando estavam prontas para voltar para a cidade, algo as fez interromper a caminhada. Uma senhora, sentada num rochedo, detinha um olhar penetrante para as duas raparigas. Uma senhora de cabelos brancos, muito invulgar e ricamente vestida. Mariana não estava tão certa que deveriam aproximar-se, mas Margarida tinha uma opinião diferente. Ela sabia que tinham de ir. Era como se fosse a sua missão. Dirigiram-se, então, para ela e, à medida que se aproximavam, mais incrédulas ficavam com o que viam: uma senhora que parecia de outros tempos, de outra época... o vestido de seda, as várias jóias que ostentava... tudo nela possuía tamanha beleza que quase cegava.
- Boa tarde, minha senhora, mas creio que ainda não a tinha visto por aqui...
A senhora nada respondeu, mas o olhar continuava a fixá-las. Não, o olhar continuava a fixá-la... a fixar Mariana. Para aquela senhora, era como se Margarida nem ali estivesse.
- Senhora, desculpe, mas começo a ficar preocupada consigo. Está sozinha? Quer que chame alguém?
Mais um momento de silêncio. Por fim, a senhora falou:
- Sempre aqui estive, sempre. Tenho estado à tua espera, Mariana.
- À minha espera?
- Certamente.
Nada daquela cena parecia real.
- Como sabe o meu nome? Que se está a passar aqui? - Mariana começava a ficar inquieta.
- É claro que sei o teu nome, foste tu própria que me chamaste, que pediste que viesse um dia... não te recordas?
- Eu chamei? Mas eu nem a conheço...
- Conheces, sim, conheces muito bem.
Mariana sabia que aquilo era verdade, ela conhecia aquela senhora... mas de onde??
- Pensa. Fecha os olhos e pensa. Escuta bem a minha voz.
Mariana ficou de olhos fechados e concentrada a tentar recordar aquela voz tanto (ou tampouco) tempo que lhe pareceu uma eternidade. Quando falou, a sua voz não era mais que um fiozinho, um fio de incredulidade e estupefacção.
- Não pode ser... não é possível... mas é... como?! É a senhora, a Senhora do Castelo.

sábado, 8 de janeiro de 2005

Verão em Sintra Parte II - Margarida

Tudo começou, se desenrolou e somente muito mais tarde Mariana se apercebeu.
Partiram bem cedo pela manhã. Ao chegarem a Sintra, depararam-se com uma bela cidade, mais ainda naquela manhã maravilhosa... aquele céu azul... aquele verde da serra. Lindo, mesmo lindo. Foram ao apartamento que os organizadores da exposição tinham arranjado para as duas. Instalaram-se. Mariana, apesar de tudo, apesar de tanta beleza, continuava sem muita animação. Preferia ficar no apartamento, mas viu-se praticamente obrigada a sair com a mãe. Foram à exposição para ver se estava tudo em ordem. A mãe arranjou logo trabalho para fazer, coisas que ela dizia não estarem no lugar certo e deixou Mariana passear um pouco, já que pouco faria ali a olhar para a mãe. Foi passear pela cidade, comer um gelado, tirar algumas fotografias, tentar divertir-se um pouco, mas sozinha era difícil. Farta de andar pela cidade só, acabou por se sentar perto da exposição à espera da mãe. Quando a mãe chegou foram almoçar, a mãe voltou para a exposição e Mariana foi para o apartamento.
Assim foram os seus dias... do apartamento para a exposição, da exposição para o apartamento. Pouco fazia. Acompanhava a mãe na exposição, lia bastante, escutava música e via muita muita televisão. Um mês tinha passado desde que chegara. Poucas pessoas conheceram, nenhum amigo fizera.
A mãe tinha-se tornado muito amiga dum casal que também estava naquela exposição. A mulher era escultora, o marido pintor. Família Martins. Casal simpático e sorridente. Tinham uma filha que iria chegar em poucos dias e a mãe já tinha avisado a Mariana para não deixar a rapariga sozinha. Ela reclamou um pouco, mas, bem no fundo, não se importava assim tanto, pelo menos, desta forma, tinha alguma coisa para fazer... e companhia também. A moça chegou. Margarida o nome. Parecia simpática, mas pouco falava, o que não ajudava muito. Mariana apercebeu-se que falava sem parar perto dela, tentando que ela também conversasse, se abrisse um pouco, mostrasse quem é, mas não conseguia saber grande coisa. Acabaram por se tornar amigas. Riam bastante, passeavam bastante... aquela viagem começara a tornar-se interessante para Mariana. Margarida fazia muito bem a Mariana. Parecia uma rapariga com autoestima, olhava para os rapazes descaradamente e ainda lhes mandava piropos. Mariana ficava mais segura de si perto dela e só bem depois se apercebeu que todo aquele descaramento da amiga se devia à timidez. Nunca namorara, tal como Mariana. Identificavam-se. Tornavam-se cada vez mais amigas, mais cúmplices.
Aquele Verão começava a mudar para Mariana, mas mais, muito mais estaria por vir.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Verão em Sintra Parte I - Mariana

Começa o Verão. Mariana tinha já terminado as aulas e preparava-se para acompanhar a mãe numa viagem. Estava aborrecida, pois aquelas viagens com a mãe eram uma seca. Não era somente obrigada a ir, era também obrigada a estar com a mãe o tempo todo, segui-la para todo o lado e... concordemos... não é o que uma rapariga de 17 anos mais deseja. Mariana, desde que haviam começado as férias, pouco saíra de casa, mas há muito que se deixara de importar com isso. Acordava e passava o seu dia a fazer 5 coisas importantíssimas: comer, ver televisão, ler, ouvir música e navegar na net. O seu refúgio: o seu quarto. Ali sentia-se segura, sentia que ninguém podia fazer-lhe mal naquele espaço. A sua vida era naquele quarto e tudo o que menos queria era deixá-lo e encarar mais uma viagem. A net servia de consolo, era uma escapatória, uma forma de comunicar com o mundo. Lá podia ser quem quisesse, não existiam limites. Lá era livre. Como qualquer típica adolescente, julgava-se feia e incompreendida por todos. Nunca tivera um namorado, se bem que já tivesse gostado (ou julgava que tivesse) de vários rapazes. Por nenhum deles fora correspondida e isso tornava-a mais amarga perante o seu rosto e o seu corpo em transformação.
-De manhã abalamos cedo para a nossa viagem, Mariana.
Aquela maldita viagem. Iam passar três meses em Sintra e não conhecia lá ninguém. A mãe era pintora. Era maravilhosa com as mãos. Tinha sido convidada a participar duma exposição e aproveitaria para fazer mais trabalhos no meio de tão bela paisagem como era Sintra. Maldita viagem... iria ser uma chatice como era sempre.
Porém, foi ali que tudo começou.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005


Apresento-me. Esta foto foi tirada em Agosto numa viagem que fiz com algumas amigas minhas a Itália. Estávamos num ferryboat em Veneza. A máscara que seguro é uma típica máscara veneziana. Linda Veneza. Posted by Hello

E assim começo...

Ora bem... decidi ceder e juntar-me à "irmandade" dos blogs... não vale mais a pena tentar remar contra a maré... os blogs e fotologs venceram, portanto aderi;)
Não tenciono fazer disto um diário do meu dia-a-dia, pois só leriam coisas sobre a programação da tv ou o número da página do livro que estou a ler ou ainda as novidades das novelas que estupidamente me captam a atenção. A minha vida não tem sido assim tão emocionante, então, escolhi não falar sobre o meu dia-a-dia porque além de deprimente iria ser sobejamente aborrecido. Ok, ok... a minha vida não é uma completa chatice, tenho uma ou outra história emocionante... mas essas pequenas histórias serão contadas através de personagens que pretendo criar... só não sei se alguém gostará. Sinceramente, não estou muito preocupada se alguém vai ler o meu blog ou se vai gostar, só quero é poder fazer uma coisa que realmente gosto: escrever.
E é assim que começo o meu blog: de lápis e papel (ou teclado e monitor=p) e pronta para muitas pequenas histórias e outras coisitas mais.
«Lápis e papel» foste apresentado.

sepia




Borboleta do Lápis e Papel


sábado, 1 de janeiro de 2005