quinta-feira, 31 de março de 2005

Ilusão





Anjos.
Demónios.
Deuses...
A nossa vida transborda
em crenças insanas
que nos fazem temer o amanhã,
que nos fazem matar o depois.
Usamos estes seres
como escudo para o que sofremos
e vivemos.
Acreditamos que nos escutam
e satisfazem nossas preces.
O mundo acabando,
negro,
sujo,
e nós continuamos
a crer.
Podemos ter a crença connosco.
Acreditar.
Ter uma infinita fé.
Mas não podemos apagar da nossa mente
que o amanhã
está em nossas mãos
e não nas mãos de outrém,
que somos nós que construimos cada dia
e não um deus que cumpre seus desígnios.
Não podemos ferir
matar
em nome de deuses
e santos
e religioes.
Não são eles
que pegam nas armas e apunhalam a vida.
Somos nós,
seres humanos,
por vezes
reles,
imundos,
cegos,
impregnados de ódio,
que ferimos,
matamos.
Anjos.
Demónios.
Deuses...




Tenho estado um pouco ausente da blogosfera, mas espero que a partir de dia 11 tudo volte ao normal. Beijitos esvoaçantes a todos:)

Dia 2 faço anos, dia 2 faço anos ... 19 anitos;)

sexta-feira, 25 de março de 2005

Perfume





Sinto o teu cheiro no ar,
meu perfume favorito,
e abraço-te
num suspiro,
como quem abraça a vida
num momento.
Mas não és tu que abraço,
é o ar que roubou teu cheiro
e que me fita
de sorriso escarninho
no rosto que não existe
mas que sinto em mim.
É o ar que abraço, enfim.
Uma lágrima rebelde
abandona-me
sem que a detenha,
sem que o tempo
me dê tempo de a não deixar escapar.
E outras,
solidárias,
a seguem em cascata,
até o meu corpo,
vencido,
quase cair na terra dura e fria...
quase...

Sinto uma mão
que não me deixa cair,
que me segura,
protectora.
Um corpo que me abraça.
Uma alma que me afaga.
E cheiro o meu perfume favorito,
não no ar vil
que nos ilude,
ardiloso,
mas em ti,
meu amor,
que chegaste
para não mais partir.

Raphaela Blat

terça-feira, 22 de março de 2005

Busco-te...




Passeio por esta praia
de areia tão fina e dourada,
sentindo em meus pés
a água deste mar que me abraça,
respirando o aroma sereno
deste pedaço de paraíso.
Busco-te em cada recanto da minha vida.
Busco-te em cada passo que dou nesta praia.
Busco-te...
porque te amo,
somente porque te amo.
E é já o bastante
para querer-te a meu lado,
para procurar-te eternamente.
Meu corpo é ainda tua moradia.
Minha alma solta
e presa
em semelhantes doses.
Solta e livre como só uma alma sabe ser.
Presa a ti com um fio
que ninguém vê
e ninguem quebra,
um fio suave,
cuidadoso,
que acaricia os nossos sentimentos mais belos.
O meu coração vibra
quando dos meus lábios
saem sons
que se transformam no teu nome
e dos meus olhos caem lágrimas
ao jurarem ver-te.
Mas o teu nome não te encontra
e meus olhos juram perante o nada.
E eu, meu bem,
busco-te...


Raphaela Blat

segunda-feira, 21 de março de 2005

Carpe diem


Solta-te ao vento.
Esquece as convenções.
O que querem que faças.
Como querem que sejas.
E solta-te ao vento.
Sê feliz,
completamente,
inteiramente
infinitamente.
Faz o que queres.
Sorri mais ao mundo.
Sorri mais a quem te rodeia.
Sorri a quem te quer bem.
Vamos dar rosto à gente sem rosto.
Vamos ajudar a curar a cegueira do mundo.
Solta-te ao vento com prazer.
Segue o caminho que escolheres.
Muda de percurso quando julgares que é a hora.
Muda de novo
porque és o senhor do teu caminho,
o senhor do teu fado.
Caminha descalço.
Sente bem essa terra.
Respira bem fundo.
Grita bem alto.
Solta-te ao vento com alegria.
Contempla a vida que existe.
A natureza poderosa,
bela,
carichosa,
leva-te a flutuar no mar da vida.
Não te esqueças que só flutuarás uma vez.
Solta-te ao vento.
Esquece as convenções.
O que querem que faças.
Como querem que sejas.
Sê feliz
e vai.

Raphaela Blat

quinta-feira, 17 de março de 2005

À luz da vela





À luz desta vela me revelo.
Minha alma entregue à sua chama.
Meus olhos janelas abertas.

À luz desta vela me quedo
muda,
no silêncio
esperando
um sinal teu,
esperando escutar a tua voz
antes que o nada
ocupe o meu ser
e se instale,
sem pedir licença,
eternamente.

À luz desta vela me entrego
para a minha despedida...
Mas, eis que
o meu espírito
se mostra.
E as janelas dos meus olhos
revelam,
com clareza
e sabedoria,
meus pensares
em seu estado
mais puro e belo,
sem o toque das gentes,
sem o toque do mundo.
E pelas janelas abertas
voam meus pensamentos
tentando alcançar a luz da vela,
tentando sentir o calor da chama.

À luz desta vela me revelo,
sem nevoeiro turvando a visão.
A minha alma desnuda
rende-se
à imensidao da luz,
rende-se
ao calor da chama

e esqueço a tua voz...

Raphaela Blat

segunda-feira, 14 de março de 2005

O pesadelo





Adormeces,
acordando
nesse mundo.
Gritos
ecoam na tua cabeça.
Música bem alta
explode no ar.
Não sabes onde estás.
Não sabes tanta coisa.
Como um novelo de lã
que se vai formando,
também tu te tornaste no que és,
a pouco e pouco.
E agora não encontras o começo do novelo.
Pessoas em tua volta,
estranhas pessoas.
Nem te olham.
Já pertences àquele lugar.
Não és um estranho ali.
Gritos.
Escuridão.
Não há sorrisos,
nem alegrias,
tudo comido
pelo ar.
Corres.
Procuras.
Quem procuras?
Procuras tu mesmo.
Perdeste-te de ti.
Nem sabes quando
e agora não te consegues encontrar.
Onde ficaste?
Onde te deixaste?
Gritos.
Escuridão.
Sons que ecoam na tua cabeça...
Acordas.
Estás deitado na tua cama.
Os lençóis são coloridos.
O silêncio reina.
O sol nasce
a pouco e pouco.
Os teus olhos absorvem tudo.
A tua mente renasce
e vês que o teu sonho
te dá essa verdade que não querias ver.
Perdeste-te de ti algures,
algures nas escolhas que não fizeste,
algures nas pessoas que não viste,
algures nos amores que não amaste,
algures na vida que não viveste...
porque estavas demasiado concentrado em ti.
Perdeste-te de ti porque só a ti vias.
Onde ficaste?
Onde te deixaste?


Rapahela Blat

sábado, 12 de março de 2005

Criança da boneca de pano


de Luis Costa

Vejo uma criança
vagueando pelas ruas
da cidade
que não dorme,
da cidade
fria
e austera.
Não está sozinha.
Uma boneca de pano na pequenina mão
não a deixa só,
acompanha-a na jornada.
Vejo-a ao longe,
enquanto eu mesma caminhava por aquelas ruas,
por entre a gente sem rosto.
Aproximo-me dela.
Tão bonita,
de olhar meigo,
inocente,
porém, triste.
Pergunto-me porque estará triste a criança
e ela,
lendo meus pensamentos,
responde
que precisa de amor.
E uma lágrima,
uma pequena lágrima
cai na sua face rosada.
Abraço-a docemente
e um beijo com ternura ela me dá.
Dou-lhe o pouco amor que tenho
porque o meu coraçao é tão pequeno,
engolido já pela cidade.
E, então, a criança
com a sua boneca de pano na pequenina mão,
dá-me a mão que lhe sobra
e mostra-me que o amor que lhe dei
tem sabor a algodão doce.
O meu coração deixa de ser pequeno,
é tão grande já,
que quer ocupar o meu corpo todo
e saltar fora,
alcançar a gente sem rosto,
alcançar o mundo,
contagiá-lo.
E não mais de olhar triste,
passeia comigo
e entra a meu lado no futuro,
a criança da boneca de pano.


Raphaela Blat

quarta-feira, 9 de março de 2005

Borboleta





Olha para mim.
Olha-me.
Vê-me como sou.
Não queiras outra imagem.
Sou assim.
Aceita-me.
Respeita-me.
Olha e ama,
que olhar-te-ei
e amar-te-ei
da mesma forma,
em doses iguais.
Brinda comigo.
Liberta-me.
Solta as asas da tua borboleta.
Cuidaste da larva.
O casulo formou-se.
Chegou a hora
da borboleta sair.
Estou secando as asas,
preparando-me para voar
e pousar na minha flor.
Olha para mim.
Terei que partir.
Tu que cuidaste da larva
e sofreste com o casulo,
vês a borboleta formar-se,
ganhou asas
e quer voar.
Um dia aconteceria.
Tu mesma foste já uma larva
e uma borboleta o és agora.
Chegou a minha hora.
Olha para mim.
Voo.

Raphaela Blat

segunda-feira, 7 de março de 2005

Pintar o mundo




De cores pinto o mundo.
Rosa.
Verde.
Carmim...

Vou pintando calmamente,
passeando
e conhecendo
vilas,
aldeias,
cidades.
A cor é tão mais bela
que esta terra
azeda
e fria,
sem cor,
sem vida.

Vou pintando com ternura,
colorindo o mundo inteiro
com pincel de amor
e tintas de harmonia.
Vou seguindo viagem,
continuando a pintura.
Não descanso.
Nem converso.
Um mundo inteiro para pintar
e ainda tanto sem cor.

Vou pintando com alegria.
Juntam-se a mim crianças.
Querem também pintar o mundo.
Dou-lhes tintas e pincéis
e seguimos caminho,
pintando
a nossa terra
enquanto vamos dançando.

Vamos pintando todos juntos,
a rir e a brincar.
Aos pincéis de amor
e às tintas de harmonia,
juntam-se a paz,
a amizade,
e a fantasia.
Somos tantos agora.
Já nem consigo contar.
O mundo cada vez mais belo.
As cores a festejar.

De cores pinto o mundo.
Rosa.
Verde.
Carmim...

Raphaela Blat

domingo, 6 de março de 2005

Flor




A flor que me deste
ainda a guardo com a ternura
e o amor de outrora.

A flor dos sentimentos eternos,
como dizias
tantas e tantas vezes.
A flor com as mais belas cores,
mais belo cheiro,
com as suas pétalas
macias como veludo,
suaves como cetim,
que acariciam a nossa pele
quando o nosso toque as toca.
A flor que exalava vida
como perfume.
A flor que não é
como as restantes flores.

Acordo
e adormeço
sem por um momento,
um único momento,
esquecer a flor que me deste.
Olho-a no seu esplendor,
mágica e vibrante.
Que feitiço contém ela
que continua tão bela
como no dia em que a recebi
e guardei?

Meu bem,
a flor que me deste
ainda a guardo com a ternura
e o amor de outrora.


Raphaela Blat

sexta-feira, 4 de março de 2005

Prazer de seduzir




Seduzo-te com o olhar.
Envolvo-te nesta dança embriagadora.
Segues-me.
Continuo fugindo.
Seduzo
e afasto-me.
Elouqueces de tanto me quereres.
Satisfeita fico.
Era isso que queria.
Seduzir-te sem te tocar.
Seduzir só de te olhar.
Seduzir.
Cheiro o teu desejo,
sinto-o no ar.
Vou-me despindo
calmamente
com aquele olhar no rosto
de quem tanto sabe,
tanto quer,
de noites de prazer
e loucura.
Sem uma única peça de roupa
tocando o meu corpo,
observo-te
devagar.
O teu corpo ferve,
sei-o.
Queres-me
como nunca antes quiseste.
Era isso que eu procurava.
Seduzir-te
só pelo desejo de te ver assim,
quente,
derretendo
de tão quente.
Tentas tocar-me.
Afasto-me.
Tentas de novo alcançar-me.
Dizes-me que precisas ter-me.
Sorrio.
Faço-te sentar numa cadeira
e prendo-te.
Circulo em tua volta,
quase te tocando,
quase,
sempre quase.
Dou-te um leve beijo
e sinto a tua boca querendo mais,
muito mais.
Olho-te satisfeita.
Embrulho-me no meu casacão
e saio.



Apeteceu-me (como diz o Carlos).
Quis aquecer um pouco o ambiente do meu blog este fim-de-semana.
Está muito frio este Inverno!

quinta-feira, 3 de março de 2005

Cegueira


de Alexandre

Anjo
que dormes
deitado nessa cama
de lençóis brancos
como a tua alma.
Anjo
que dormes,
descanso merecido.
Viajaste tanto
mundo afora,
tentando salvar as pessoas
da sua cegueira.
Mas elas te não escutam,
te não querem escutar,
tampouco te querem ver.
As pessoas escolhem a cegueira,
continuar sem ver o belo,
porque estão muito atarefadas
como abelhas.
As pessoas preferem olhar-se somente
e não olhar os outros.
Anjo
que dormes,
que sonhas tu?
Que as pessoas abram os olhos
e vejam a luz do sol,
vejam as cores da vida,
vejam a maravilha de existir.
Bom sonho, anjo.
Bom sonho.
Mas será eternamente utopia?
Acorda, anjo.
Diz-lhes.
A cegueira tem que fugir.
As pessoas têm que ver, anjo.
Tornar esta utopia real,
deixar de ser fantasia.
Anjo
que dormes,
acorda, por favor.
Tens tanto que caminhar ainda.
Tens uma cegueira para curar.


Raphaela Blat

terça-feira, 1 de março de 2005

Ponte da memória




Atravessei a ponte da memória.
Corri sem olhar para trás,
sem ver o destino.
Só sentia os meus pés
tocando a velha madeira,
o ar acariciando as minhas faces,
os meus olhos em água salgada convertidos,
o meu corpo cansado,
a minha alma ferida.
Atravessei a ponte sem ternura,
sem querer o que para trás deixava,
o que eternamente ficava,
como roupas usadas num baú antigo.
Só queria percorrer a ponte sem demora
e chegar no fim esperado
para um poderoso recomeço.
Terminar o caminho
que me atormentava
e libertava
em doses tão iguais
como metades da mesma flor.
Atravessei a ponte da memória
e sei mais pensar,
sem mais temer,
apaguei o passado e o presente
e deixei o futuro na mente
para ser o novo agora.
E com alma branca cheguei.
Olhar cristalino no rosto.
E com lábios puros sorri
ao novo dia
que brotava.

Raphaela Blat