Parte I
Foi num dos passeios que as duas amigas fizeram que a viram.
Tinham decidido sair um pouco da cidade de Sintra e, como já tinham visitado o Palácio da Pena, escolheram ir ao Castelo dos Mouros. Olhar tudo lá de cima deveria ser espectacular, achavam elas. O Palácio não as tinha entusiasmado muito, todas aquelas peças antigas entediavam-nas, mas tinham esperança que no Castelo fosse bem diferente. A vista devia ser bem bonita, mas Mariana sentiu algo estranho. Não sabia se bom se ruim e isso inquietava-a. Talvez não devessem ir, ou então, deveriam ir sem demora, deveriam ir logo. Não sabia... Preferiu pensar que tudo era imaginação da sua cabeça e tratou-se de esquecer aquilo. Depois de almoço, foram e quando lá chegaram deslumbraram-se com a paisagem. Sentaram-se ao Sol, visitaram todos os recantos do Castelo e foram até às muralhas, percorrendo toda a escadaria que a ladeava, imitando reis e rainhas, gargalhando com a brincadeira. Quando estavam prontas para voltar para a cidade, algo as fez interromper a caminhada. Uma senhora, sentada num rochedo, detinha um olhar penetrante para as duas raparigas. Uma senhora de cabelos brancos, muito invulgar e ricamente vestida. Mariana achou que não deveriam aproximar-se, mas Margarida...bem, ela não entendia nada do que estava a sentir, somente sabia que tinham que ir. Que sensação estranha...era como se fosse a sua missão.
Caminharam, então, na direcção daquela senhora e, à medida que se aproximavam, mais incrédulas ficavam com o que viam: uma senhora que parecia de outros tempos, de outra época... o vestido de seda, as várias jóias que ostentava... tudo nela possuía tamanha beleza que quase cegava.
- Boa tarde, minha senhora, mas creio que ainda não a tinha visto por aqui...
A senhora nada respondeu, mas o olhar continuava a fixá-las. Não, o olhar continuava a fixá-la... a fixar Mariana. Para aquela senhora, era como se Margarida nem ali estivesse.
- Senhora, desculpe, mas começo a ficar preocupada consigo. Está sozinha? Quer que chame alguém?
Mais um momento de silêncio. Por fim, a senhora falou:
- Sempre aqui estive, sempre. Tenho estado à tua espera, Mariana.
- À minha espera?
- Certamente.
Nada daquela cena parecia real.
- Como sabe o meu nome? Que se está a passar aqui? - Mariana começava a ficar inquieta.
- É claro que sei o teu nome, foste tu mesma que me chamaste, que pediste que viesse um dia... não te recordas?
- Eu chamei? Mas eu nem a conheço...
- Conheces, sim, conheces muito bem.
Mariana sabia que aquilo era verdade, ela conhecia aquela senhora... mas de onde??
- Pensa. Fecha os olhos e pensa. Escuta bem a minha voz.
Mariana ficou de olhos fechados e concentrada a tentar recordar aquela voz tanto (ou tampouco) tempo que lhe pareceu uma eternidade. Quando falou, a sua voz não era mais que um fiozinho, um fio de incredulidade e estupefacção.
- Não pode ser... não é possível... mas é... como?! É a senhora, a Senhora do Castelo...
(continua)
Apeteceu-me... para não ser sempre poesia:)




