quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Silêncio



Escorrem os dias por entre as mãos de longos dedos, mãos cansadas, calejadas pelo tempo. Escorrem as noites por entre os olhos abertos, incapazes de sonhar. Deitado na cama de casal, não consegue descansar a sua alma de velho. Quantas vidas teria que viver para conseguir finalmente dormir? Dormir com os pensamentos de outrora. Dormir com o descanso de outrora. Dormir com a companhia de outrora. Olhou para o espaço vago a seu lado, para a almofada intocada. Olhou para o coração, o vazio que o cobria. Sentou-se na cama de casal. Estava efectivamente velho. A barba por fazer e as olheiras formando profundos círculos negros no rosto reflectiam a sua desgraça. Queria não mais sair daquele quarto. Queria não mais vaguear numa casa vazia, noutros tempos transbordando cheiros e sons e calor. Como poderia ele sentar-se no seu cadeirão fumando o seu charuto sem ela por perto a acompanhá-lo, sem a sua respiração a dizer-lhe que não estava só? Não eram precisas palavras. Ficavam horas em silêncio. Entre eles não eram precisas palavras. Bastava a certeza que estavam juntos e que depois de tantos anos o amor ainda habitava aquela casa. Bastava a certeza de que o silêncio era somente silêncio de palavras, não de sentimentos. Ele olhava-a sentada enquanto ela lia os seus preciosos romances com a mesma ternura de anos atrás, tantos anos atrás. E ela observava-o jogando xadrez contra si mesmo com o mesmo encanto de anos atrás, tantos anos atrás.
E agora estava só. Ela tinha partido para sempre. A sua companheira, a sua amiga, o seu amor partira para não mais regressar. Só ele poderia encontrá-la quando chegasse o seu momento de partir.
Voltou a deitar-se na cama de casal.
Agora o silêncio seria eternamente rei, poderoso, intimidante, impiedoso.

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Dançando com a vida...



domingo, 28 de agosto de 2005

Poema primeiro


Olho para as avenidas cheias de luz e escuridão,
para as ruas por onde passa tanta gente
e simultaneamente ninguém.
Olho para o luar e procuro-te.
Não te encontro.
E sinto uma estranha sensação,
sensação de nervosismo,
de inquietação,
de medo,
por não te encontrar,
por não te querer perder,
por te amar.


Raphaela Blat

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Perturbações


Sonhos sem cor arrasam meu corpo.
Sonhos frios.
Pedaços de vida morta.

Sonhos perdidos na apatia do ser.
Sonhos amargos.
Rasgos de dormência da alma.

Ausência
da cristalina veia de sentires.
Presença
do nada que nada é por nada ser
e este nada por nada com nada
equaciona um nada inquieto, que algo já é.

E estes sonhos sem cor,
viajantes indesejados
de um passado presente,
quase vencem meu corpo adormecido,
quase morto, quase vivo.

Mas mortos jazem os sonhos
ao me despertares num amanhecer de tons quentes
que aquece e colora o meu olhar de infinito.


Raphaela Blat

Tive positiva a história... aqui vou eu universidade

terça-feira, 16 de agosto de 2005



Desculpem amigos por nao ter dado noticias. Tive dois motivos. Primeiro fui ajudar a minha mae numa feira de artesanato e pensei ir a um cibercafe mas nao tive tempo. O segundo motivo e que o raio do meu computador apanhou um virus, um daqueles virus estupidos que trocam os simbolos do teclado (se repararem nao tou a usar sinais de pontuacao, ja nao sei onde ficam), estragam o antivirus... Tenho que o formatar mas quero guardar tudo o que aqui tenho primeiro. Alem disso tenho que procurar alguem que me ajude a formata.lo porque nao percebo nada disto.

Nao vos visitarei agora, porque vou ja desligar o computador antes que ele tenha mais um dos ataques que teve ha bocado quando tentei entrar na net. Nao deixarei o poema que ja tenho pronto porque quero posta.lo quando tiver tudo ok. Espero que ate sexta ja teja tudo resolvido.

Beijos a todos e obrigada pelos comentarios. Gostei mesmo muito. Pena nao os ler com mais calma, mas depois leio tudo bem.

E verdade, branco e a ausencia de cor, tanto que ha quem nem o considere uma cor. A juncao de todas as cores e o preto.

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Cor branca


de Maurício Dobke


Fito teu rosto de anjo
e encontro em ti o cristal que busquei.
A tua brancura cega-me,
uma cegueira benvinda.
Uma cegueira que me afasta dos males do mundo
e só me consente ver a bondade no coração dos homens.
Suspiro,
sabendo que esta cegueira
deturpa a triste realidade.
Mas quem pode condenar-me por achá-la benvinda,
se é tão melhor esta ilusão que ela cria?

Toco tuas mãos de fada
e encontro em ti a magia que busquei.
Magia branca como as asas de um cisne
que alcança os céus
e a plenitude da liberdade.
Quero essa brancura encantada,
a pureza e a fantasia que anseio.
E suspiro,
sabendo que pouco tem o mundo de puro e mágico.
Mas quem pode condenar-me por sonhar,
se é tão melhor esta utopia que crio?

Aqueces-me com essa cor branca.
Mas como pode uma cor
que é a ausência de cor
aquecer a alma?

Raphaela Blat

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Despedida


- Chegou a minha hora. Tenho que partir, seguir o meu caminho.

- Não vás, por favor, não vás.

- A minha estrada espera-me.

- Fica comigo.

- Sempre ficarei contigo, sempre. Mas o meu corpo não pode ficar aqui, não pode criar raízes, tem que ser livre, sem amarras, sem grilhões...

- Eu vou contigo, partiremos juntos.

- Bem sabes que irei sozinho, o meu caminho não tem companhia.

- Amo-te, não me deixes.

- Também te amo. Adeus.