Silêncio
Escorrem os dias por entre as mãos de longos dedos, mãos cansadas, calejadas pelo tempo. Escorrem as noites por entre os olhos abertos, incapazes de sonhar. Deitado na cama de casal, não consegue descansar a sua alma de velho. Quantas vidas teria que viver para conseguir finalmente dormir? Dormir com os pensamentos de outrora. Dormir com o descanso de outrora. Dormir com a companhia de outrora. Olhou para o espaço vago a seu lado, para a almofada intocada. Olhou para o coração, o vazio que o cobria. Sentou-se na cama de casal. Estava efectivamente velho. A barba por fazer e as olheiras formando profundos círculos negros no rosto reflectiam a sua desgraça. Queria não mais sair daquele quarto. Queria não mais vaguear numa casa vazia, noutros tempos transbordando cheiros e sons e calor. Como poderia ele sentar-se no seu cadeirão fumando o seu charuto sem ela por perto a acompanhá-lo, sem a sua respiração a dizer-lhe que não estava só? Não eram precisas palavras. Ficavam horas em silêncio. Entre eles não eram precisas palavras. Bastava a certeza que estavam juntos e que depois de tantos anos o amor ainda habitava aquela casa. Bastava a certeza de que o silêncio era somente silêncio de palavras, não de sentimentos. Ele olhava-a sentada enquanto ela lia os seus preciosos romances com a mesma ternura de anos atrás, tantos anos atrás. E ela observava-o jogando xadrez contra si mesmo com o mesmo encanto de anos atrás, tantos anos atrás.
E agora estava só. Ela tinha partido para sempre. A sua companheira, a sua amiga, o seu amor partira para não mais regressar. Só ele poderia encontrá-la quando chegasse o seu momento de partir.
Voltou a deitar-se na cama de casal.
Agora o silêncio seria eternamente rei, poderoso, intimidante, impiedoso.




