sábado, 19 de novembro de 2005

Madrugada


Pedro Gomes


Escapo-me pela madrugada da alma.
Percorro ruas e ruelas
e vejo corpos em aparente sintonia.
Têm o mundo nas costas e não enxergam,
pensam que o que tanto pesa é seu corpo e continuam.
São formigas, não são gente.

E na minha visita à cidade dos cegos
caio e me levanto a cada instante,
sem ajuda, sem palavras.
Ainda lá me encontro, labirinto premente.

Respiro este ar vagabundo
e como as estrelas do céu,
mato os sonhos, os sorrisos
e faço nascer o vazio, a apatia.
E na escuridão que a mim mesma enlacei,

vagueio na solidão do presente.
Não vejo já as ruas e ruelas,
nem as formigas que não são gente,
pois comi do céu as estrelas.

Raphaela Blat

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

Monotonia



A monotonia tem a face da segurança. Fica-se com medo de arriscar quando já conhecemos um certo caminho, aquele que nos parece prudente. Não arriscamos. Temos medo. Consome-nos até ao âmago do nosso ser, o medo. Acordamos e dormimos, seguindo a rotina e não admitimos o medo, não, admiti-lo é dar-lhe a importância que tem mas que não queremos que tenha, admiti-lo é admitir que a nossa vida é sem sal sem sabor, um caminho já gasto de tão percorrido. Não. Preferimos não pensar no medo, na rotina, na monotonia...
Não vestimos amarelo porque não é costume, aquele vestido às bolinhas na vitrina tão bonito... Comprar? Nem pensar!! Não tem nada a ver com a roupa que visto. Comer gelado de manga? Mas sempre comi de chocolate! Acordar às 7 da manhã como sempre, beber café como sempre, sair e comprar o pão no sítio de sempre à hora de sempre, andar pela mesma rua, ler sobre os mesmos assuntos, usar as mesmas palavras, olhar as mesmas pessoas... e amor? A intensidade de sempre, as conversas de sempre, as atitudes de sempre, os presentes de sempre, as posições de sempre...

o medo.
a monotonia.




P.S.: Deixo-vos um beijo doce. Visitar-vos-ei assim que puder.

sábado, 5 de novembro de 2005

Aquele abraço...




Voltarás?

(silêncio)

Abraça-me.


E neste lugar sem sorrisos
te beijo nos teus lábios meus.
E nesta noite sem estrelas
te abraço, meu corpo de luz.

As lágrimas que caem do meu rosto,
punhais que te ferem a alma,
são lâminas de saudade, instantes de despedida.

E neste meu corpo que é teu
sinto a ausência de mim.
Roubaste-me com a ternura do teu frágil coração.
Parto sem ti. Parto sem mim.

Raphaela Blat

Parto.


foto de Jorge Garcia