Madrugada
Pedro GomesEscapo-me pela madrugada da alma.
Percorro ruas e ruelas
e vejo corpos em aparente sintonia.
Têm o mundo nas costas e não enxergam,
pensam que o que tanto pesa é seu corpo e continuam.
São formigas, não são gente.
E na minha visita à cidade dos cegos
caio e me levanto a cada instante,
sem ajuda, sem palavras.
Ainda lá me encontro, labirinto premente.
Respiro este ar vagabundo
e como as estrelas do céu,
mato os sonhos, os sorrisos
e faço nascer o vazio, a apatia.
E na escuridão que a mim mesma enlacei,
vagueio na solidão do presente.
Não vejo já as ruas e ruelas,
nem as formigas que não são gente,
pois comi do céu as estrelas.
Raphaela Blat



