A brisa

Abro a janela e encaro a luz do sol,
inquisidor de fogo. Tanto calor, mas
não me aquece a alma nem o coração,
esse continua de tons frios, sem a vivacidade de outrora.
Pego num fio de algodão, faço uma nuvem
e colo-a no céu, tapando o sol.
Suspiro. Agora já não pode mostrar-me
as flores que não quero ver,
as cores que não quero ter.
Mas é fina a nuvem ainda, tão translúcida.
Encho-a, então, de mágoa e torno-a bem cinzenta.
Todos os seres sabem que as
manhãs cinzentas aprisionam a alma.
Fico. É agora impossível ao sol iluminar
o mais pequeno pedaço de algo.
Assim estou protegida, penso. Vedei o caminho.
Mas uma brisa do mar, daquele mar que venero,
vem e afasta esta nuvem que fiz.
Escondo-me ao vislumbrar o sol
com a sua luz tão viva, mas tomo coragem,
inspiro esta brisa e beijo o amanhecer com o olhar.
Raphaela Blat
foto de Sergio Velho Junior (http://www.olhares.com/velhojr)




