domingo, 26 de fevereiro de 2006

A brisa





Abro a janela e encaro a luz do sol,
inquisidor de fogo. Tanto calor, mas
não me aquece a alma nem o coração,
esse continua de tons frios, sem a vivacidade de outrora.

Pego num fio de algodão, faço uma nuvem
e colo-a no céu, tapando o sol.
Suspiro. Agora já não pode mostrar-me
as flores que não quero ver,
as cores que não quero ter.

Mas é fina a nuvem ainda, tão translúcida.
Encho-a, então, de mágoa e torno-a bem cinzenta.
Todos os seres sabem que as
manhãs cinzentas aprisionam a alma.

Fico. É agora impossível ao sol iluminar
o mais pequeno pedaço de algo.
Assim estou protegida, penso. Vedei o caminho.

Mas uma brisa do mar, daquele mar que venero,
vem e afasta esta nuvem que fiz.
Escondo-me ao vislumbrar o sol
com a sua luz tão viva, mas tomo coragem,

inspiro esta brisa e beijo o amanhecer com o olhar.



Raphaela Blat



foto de Sergio Velho Junior (http://www.olhares.com/velhojr)

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Poema V





Não me encontras.
Não sabes da flor de outrora,
do jardim que criaste para mim.
Perdeste os sorrisos feitos das asas da borboleta
e os olhares líquidos de azul e cinza.

O que perdeste ficou trancado a sete chaves,
como dizem nas histórias,
pois eu não sou o que alcanças quando
enxergas da janela o horizonte.

O que vês são gotas salgadas e não o mar.
O que vês são riscos no céu e não o céu estrelado.


Raphaela Blat




Quadro de Van Gogh.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Encontro





Hoje escutei palavras. Sempre escuto.
Mas hoje escutei palavras.

Escutei-as com a alma.
Escutei-as com os olhos.
Escutei-as com o coração.

Hoje escutei palavras.

Não eram da cor da noite,
nem murchavam a flor do meu jardim.
Não eram frias como o inverno,
nem inconsequentes como crianças.

Eram um sussuro feiticeiro, um sorriso de paz.
Eram uma voz de bem querer
com um sabor a mirtilos acabados de colher.

E os olhares perderam-se nas palavras sem som.

E na despedida, as mãos se encontraram,
agradecendo o conforto dos olhares,
as almas se abraçaram
e parti.


Raphaela Blat