quarta-feira, 22 de março de 2006

Poema VII

Não sei qual a mania de ter
como mais-valia a palavra do poeta.
O que digo é tão somente
um exagero premente do que afinal sinto.

E verás que eu não minto
ao dizer-te que não leves tão a sério
o que o poeta diz, pois todo o seu mistério
é somente escrito a giz.


Raphaela Blat

domingo, 12 de março de 2006

Poema VI





Olho os céus com um sabor amargo nos lábios
que outrora tocaste com tanto querer.
Disseste: espera-me
e foi o único gesto que tive desde então: esperar.

Primaveras sucederam a primaveras.
Nasceram folhas e flores, amadureceram os frutos.

Cresceram cidades movediças, nasceu a cegueira.
Instalou-se a ferrugem no coração dos homens.

Dedos de velha, toque de moça.
O meu corpo envelheceu, mas eu suspendi o tempo da alma
[nesta espera].

Raphaela Blat


foto de António Manuel Pinto da Silva